
#26907 de novembro de 2025 · 2h11min
Sérgio Habib — Fundador e presidente do grupo SHC, responsável por trazer Citroën e JAC Motors ao Brasil e um dos empresários mais influentes do setor automotivo brasileiro
O carro é caro no Brasil não porque a montadora ganha muito, mas porque o Estado precisa arrecadar sobre consumo — e por isso nenhum incentivo ao elétrico virá de um país que exporta petróleo e tem etanol.
Antes de comprar qualquer carro eletrificado, pergunte ao vendedor: 'o que acontece se o sistema elétrico pifar — o carro ainda anda?' Se a resposta for não, considere um híbrido leve ou um usado seminovo de R$ 180 mil por R$ 100 mil.
Neste episódio do Os Sócios, Bruno e Malu Perini recebem Sérgio Habib, fundador do grupo SHC e responsável por trazer Citroën e JAC Motors ao Brasil, para explicar por que os carros são tão caros no país. Habib remonta à proibição de importação de automóveis entre 1968 e 1991, à abertura feita por Collor (com alíquota inicial de 85%) e às ondas de montadoras que chegaram depois — até a atual onda chinesa. O cerne da explicação é fiscal: o Brasil gasta 36-37% do PIB para funcionar, tem dívida de 90% do PIB e tributa consumo em vez de renda, resultando em carga tributária média de 37% sobre cada carro vendido (contra zero nos EUA e no Japão, 21% na Europa e 10% na China). Com isso, o carro é caro para o consumidor e barato para o fabricante — a Toyota recebe US$ 22 mil por um Corolla no Brasil contra US$ 28 mil em Miami e US$ 35 mil na Europa, razão pela qual não amplia sua participação aqui. Habib argumenta que o Brasil não dará incentivo fiscal a carros elétricos: precisa arrecadar, é exportador de petróleo (sétimo maior produtor, caminhando para quarto), o governo é sócio de 50% da Petrobras, e temos etanol — que do berço ao túmulo emite quase tanto quanto um elétrico. Ele mostra que, em países continentais sem trem de alta velocidade e sem infraestrutura de carregamento (Canadá, Austrália, Índia, EUA), o elétrico não passa de 4 a 8% do mercado, enquanto na China chega a 37% graças a 2,5 milhões de pontos de recarga e incentivos. A parte mais prática do episódio é o alerta sobre híbridos plug-in: são caros (só acima de R$ 160 mil), complexos e, quando o sistema elétrico pifa, o carro simplesmente não anda — um conserto pode custar R$ 90 mil num Volvo XC60. Para Habib, a solução brasileira é o híbrido leve de 12V, que continua funcionando mesmo se o sistema elétrico falhar. Ele ainda fala de desvalorização brutal dos elétricos caros (Audi, Volvo, Mini e Porsche Taycan perdendo 50% em um ano), da resiliência dos elétricos baratos por causa dos 2 milhões de motoristas de aplicativo, da geração distribuída solar que já equivale a quatro Itaipus, da campanha do "taxar o sol", dos riscos do biodiesel e do avanço das marcas chinesas de 31% para 62% do mercado interno da China.
“O Brasil de 68 a 91 era proibido importação de automóveis. Não é que tinha alíquota de importação, era proibido.”
“O nosso carro acaba sendo caro pro consumidor e barato pro fabricante, porque quando você tira imposto, o nosso preço sem imposto no Brasil é barato.”
“Para que que eu vou dar dinheiro pro cara comprar carro elétrico? Eu tô prejudicando a Petrobras. O governo é sócio de 50% da Petrobras.”
“Primeira pergunta que vocês devem fazer quando vão comprar um carro é o seguinte: o que acontece se o sistema elétrico pifa?”
“Tem dois tipos de EcoSport com câmbio automático: o que o câmbio quebrou e o que o câmbio vai quebrar.”
“O carro elétrico caro desvaloriza uma barbaridade, porque um monte de gente já entendeu que tem restrições ao uso.”