
#15421 de setembro de 2023 · 2h18min
Oliver Stuenkel — Palestrante, analista e professor de relações internacionais da FGV, autor de 'Mundo Pós-Ocidental' e 'BRICS: o futuro da ordem global', colunista do Estadão e da Americas Quarterly
3 livros, na ordem em que aparecem na conversa.
BRICS: o futuro da ordem global
citado por Oliver Stuenkel
9:22O Choque de Civilizações
citado por Bruno Perini
26:23Mundo Pós-Ocidental
citado por Oliver Stuenkel
28:19Num mundo em que EUA e China caminham para o confronto, o espaço do meio — a neutralidade que serviu tão bem ao Brasil nos anos 2000 — virou o lugar mais desconfortável do tabuleiro: tentar agradar os dois lados acaba desagradando ambos.
Revise seu portfólio pela ótica do risco geopolítico: identifique quais das empresas em que você investe dependem criticamente da China ou de Taiwan (semicondutores) e verifique se elas já divulgam planos de resiliência para um eventual conflito.
Neste episódio do Os Sócios, Bruno e Malu Perini recebem novamente o professor de relações internacionais da FGV Oliver Stuenkel para discutir os BRICS e a chamada nova ordem mundial. Stuenkel reconstrói a história do grupo: nasceu como uma sigla de investimento criada por Jim O'Neill, do Goldman Sachs, em 2001, para indicar países emergentes com bom retorno de capital, e só a partir de 2009 — por iniciativa sobretudo da Rússia — virou um agrupamento político com reuniões presidenciais anuais. O professor relata bastidores dessas cúpulas: diferenças culturais profundas, acadêmicos chineses 'briefados' pelo governo, tentativas russas de transformar o bloco em algo anti-ocidental barradas pelo Brasil, e a assimetria crescente diante de uma China cuja economia é maior que a de todos os outros membros somados. A conversa avança para a expansão do bloco com Argentina, Egito, Etiópia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Irã, lida por Stuenkel como reflexo de onde a China quer estar presente: regiões produtoras de petróleo e pontos estratégicos como o Canal de Suez e o Bab-el-Mandeb. Discutem também as tensões internas (Egito x Etiópia, Argentina x Irã, repressão aos uigures), a dificuldade crescente do Brasil em manter neutralidade entre EUA e China, e por que, na leitura de Stuenkel, a postura brasileira sobre a Ucrânia não funcionou — sendo vista pelo Ocidente e pelos ucranianos como pró-Rússia. Na parte final, o bloco se volta para Taiwan — muito mais relevante economicamente que a Ucrânia por causa dos semicondutores, mas também militarmente mais difícil de invadir — e para a eleição argentina, com Stuenkel apostando na vitória de Javier Milei e alertando que isso seria má notícia para o Brasil e um cenário de provável convulsão social. Há ainda uma reflexão prática: investidores e multinacionais já pedem 'planos de resiliência geopolítica' aos fornecedores.
“Uma pequena aberração histórica de liderança ocidental que todo mundo sabia que ia acabar em algum momento, porque na Ásia sempre foi o centro demográfico.”
“Os chineses olharam e falaram assim: mas o governo não briefou vocês? A gente está aqui realmente discordando.”
“É como dois amigos que brigam: você tem que ficar do meu lado ou do outro. E você dizer 'gente, eu gosto de vocês dois' — aí fica difícil.”
“Se você gerencia uma estratégia de neutralidade, os dois lados ficam chateados.”
“Os eleitores do Milei não estão votando no Milei porque gostam das ideias, e sim porque querem mostrar o dedo do meio para toda a elite política.”
“Eu falei: esquece, esse cara nunca vai ganhar porque ele é muito radical. Uns anos depois tive que morder minha língua.”