
#6124 de março de 2022 · 1h46min
Aline Tavares — Analista de ações com mais de 10 anos de experiência e gerente de análise de ações da casa de análise Spiti, formada em economia com MBAs em finanças e gestão de investimentos.
Guilherme Cadonhotto — Especialista de renda fixa da casa de análise Spiti, economista pela FGV e pela Nova School of Business and Economics, em Portugal.
O preço dos combustíveis é só a ponta visível: segurar o preço artificialmente não elimina a conta, apenas transfere para impostos, dívida pública e juros — e quem mais paga é sempre o mais pobre.
Reveja sua carteira hoje considerando que juros altos vieram para ficar por um tempo: trave ao menos uma parte em prefixados ou títulos indexados à inflação (IPCA+6%) em vez de esperar as taxas subirem mais.
No episódio 61 do Os Sócios Podcast, Bruno e Malu Perini recebem os analistas da Spiti Aline Tavares e Guilherme Cadonhotto para destrinchar a alta da gasolina. A conversa começa explicando o que são commodities e por que praticamente todas subiram de preço: na pandemia, produtores cortaram oferta esperando uma queda de PIB de 10%, a queda real foi bem menor, vieram estímulos fiscais que aqueceram a demanda, depois fatores climáticos (La Niña, a pior seca em 91 anos no Sul/Sudeste) e por fim a guerra entre Rússia e Ucrânia, grandes exportadores de petróleo, trigo e fertilizantes. Os convidados explicam a política de paridade internacional de preços da Petrobras e desmontam o mito da autossuficiência: o Brasil produz petróleo suficiente, mas não tem capacidade de refino para o próprio petróleo, precisando importar derivados. Também mostram que segurar artificialmente preços (como em 2014-2015) quase quebrou a Petrobras e destruiu o setor sucroalcooleiro, e que a conta sempre volta para o cidadão — via preço no posto, via impostos ou via dívida pública. O episódio escancara a carga tributária brasileira (cerca de 62% sobre combustíveis, 48% sobre energia elétrica) e o custo de ineficiência: mais de 1.000 horas por ano só para calcular impostos. Na parte final, discutem o encadeamento inflação → juros → empreendedorismo → bolsa. Aline aponta que as empresas da bolsa estão capitalizadas e que commodities, bancos, transmissoras de energia e empresas com poder de precificação se protegem da inflação (ela trocou Petrobras por PetroRio por causa do risco de ingerência política e do fluxo negativo de notícias em ano eleitoral). Guilherme defende que as taxas da renda fixa já estão atrativas — prefixados a 12% e IPCA+6% — e que esperar o cenário melhorar é perder a oportunidade.
“Ou a gente vai pagar a gasolina mais cara ou o pessoal vai fazer com que a empresa trabalhe com preços mais baixos. Isso pode quebrar a empresa e no final o governo resgata com o dinheiro dos nossos impostos. Então não tem como essa conta não sobrar pra gente no final.”
“Olha onde a carga tributária no Brasil é maior: onde você não tem escapatória. Você vai parar de consumir energia elétrica? Você vai parar de colocar combustível? É onde a carga tributária é maior, porque a demanda é inelástica.”
“Há três maneiras de chegar até a ruína: a mais divertida é com jogo, a mais prazerosa com mulheres e a mais segura ouvindo os conselhos de um economista.”
“Todas as nossas decisões de investimento têm que focar no que é provável e não no que é possível.”
“Só vai ter preço bom, taxa boa, quando tiver incerteza.”
“Você intervir muitas vezes não é só o problema financeiro momentâneo. Você pode causar um problema estrutural em termos de eficiência, médio e longo prazo.”