
#15709 de outubro de 2023 · 2h02min
Oliver Stuenkel — Palestrante, analista e professor de relações internacionais da FGV, autor de 'Mundo Pós-Ocidental' e 'BRICS e o Futuro da Ordem Global', colunista do Estadão e da Americas Quarterly
Samuel Feldberg — Doutor em Ciência Política pela USP, pesquisador da Universidade de Tel Aviv e especialista em conflitos internacionais no Oriente Médio
4 livros, na ordem em que aparecem na conversa.
Mundo Pós-Ocidental
citado por Bruno Perini
2:40BRICS: o futuro da ordem global
citado por Bruno Perini
2:40Estados Unidos e Israel: uma aliança em questão
citado por Bruno Perini
3:10
O Mercador de Veneza
citado por Bruno Perini
22:56Conflitos históricos como o de Israel e Palestina se perpetuam porque cada ataque radicaliza os dois lados simultaneamente, destruindo o espaço político de quem defende o diálogo — que passa a ser tratado como traidor pelo próprio grupo.
Ao acompanhar o conflito, siga pelo menos três ou quatro analistas que discordam entre si — inclusive os que contrariam sua opinião — para escapar do algoritmo que só entrega o que você já pensa.
Gravado dois dias após o ataque do Hamas a Israel em outubro de 2023, o episódio reúne o professor de relações internacionais Oliver Stuenkel e o cientista político Samuel Feldberg para explicar o que aconteceu e por quê. Feldberg abre dimensionando o choque em proporção à população brasileira — seria como 18 mil mortos e 3.500 sequestrados num único dia — e descreve os ataques a casas, kibutzim e à rave no deserto, além do sequestro de reféns, inclusive brasileiros. Stuenkel compara o episódio ao 11 de Setembro israelense e levanta as hipóteses sobre a falha de inteligência: a polarização interna provocada pela reforma judicial de Netanyahu, o deslocamento de tropas para proteger assentamentos na Cisjordânia e a leitura equivocada de que o Hamas estava mais interessado em governar Gaza do que em atacar. A conversa recua no tempo para reconstruir o conflito: o antissemitismo europeu, as expulsões de judeus da Inglaterra, Espanha e Portugal, a Declaração de Balfour, a partilha da ONU em 1947, a guerra de independência de 1948 e a expulsão de 800 mil judeus dos países árabes. Feldberg conta a história pessoal dos próprios pais, sobreviventes de campos de concentração que refizeram a vida no Brasil, para explicar por que a ideia de um território soberano é tão central para os israelenses. Discutem ainda a diferença entre Gaza (controlada pelo Hamas) e Cisjordânia (Autoridade Palestina), a desigualdade econômica como combustível da radicalização e a educação para o ódio nas escolas geridas pelo Hamas. No plano geopolítico, os convidados apontam o Irã como grande beneficiário: o ataque travou a normalização diplomática entre Israel e Arábia Saudita, que seria histórica. Divergem sobre o cenário futuro — Feldberg acredita que Israel aceitará quase qualquer condição pelos reféns antes de invadir por terra e que o governo cairá numa comissão de inquérito; Stuenkel é mais cético e teme uma escalada longa com o Hezbollah. Encerram criticando a impotência do Conselho de Segurança da ONU e recomendando ao público seguir várias fontes divergentes para fugir da bolha algorítmica.
“Imaginem que aqui no Brasil num dia fossem assassinadas 18.000 pessoas. Essa é a proporção em relação à população de Israel.”
“Não é a diferença entre o recurso que o país tem ou não tem, e sim como esse recurso é administrado.”
“Em algum momento sempre vai ter que alguém que levanta a mão e diz: gente, vamos sair dessa loucura da escalação. E essa pessoa vai ser atacada do seu próprio lado, dizendo: você, traidor, como nesse momento de radicalização você ousa promover o diálogo?”
“Eu acho que mesmo se a ONU não existisse, ela teria que ser inventada para minimamente garantir algum tipo de diálogo mínimo.”
“Vocês são jovens, mas eu certamente não vou ver o final do conflito. Minha mãe sempre dizia que eu deveria ser mais otimista nas minhas palestras, e eu dizia para ela: infelizmente eu sou um realista.”
“Todo mundo conhece alguém. Então a prioridade do engajamento da sociedade nesse momento é com os reféns.”